André Matiazzo

Escrever me ajuda a enxergar e reorganizar o que penso. É uma ferramenta essencial no início de qualquer projeto.

Escrita

Para escrever com mais frequência e perder a vergonha de publicar, criei a mtzzine. Ela é voz que diz "ó, precisa escrever outra edição porque tem gente esperando".

Edições

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Digerindo o fim dos tempos

13 Set 2017

Semanas atrás, apertei a mão do meu escritor preferido e disse que ele tinha sido muito importante para minha formação como leitor. Só fiz isso por conta dos “melhor se arrepender de ter feito do que não ter feito” que a gente vê em propaganda de carro. Porque, olha, deu vergonha da minha voz tremendo como se eu fosse chorar. Enquanto eu repassava a cena pensando em como poderia ter agido diferente, não parecia que tinha vivido aquilo. Parecia que alguém tinha me contado. Fiquei tão preocupado com a performance de fã que quer soar tranquilo – ao mesmo tempo que tenta ignorar o tempo enorme daquela interação – que mal me lembro do que ele falou, de como me olhou ou da ordem das coisas.

Em que ponto será que o fanatismo deixa de usar a provável ressaca moral do dia seguinte como termômetro de ridículo? “Ele é só um escritor, sossega aí” não bastou para que eu não cumprimentasse o Daniel Galera e engasgasse enquanto falava com ele. “Essas pessoas só nasceram um pouco diferentes de você. Por que acha que elas são tão culpadas assim?” adiantaria para que o discurso de ódio fizesse menos sentido na cabeça daqueles que marchavam contra negros, judeus, gays e sei lá mais quem em Charlottesville?

(é assim que você faz um cavalinho de pau no meio do texto, usando experiência pessoal como ponte forçada para o tema principal)

No meu caso, tentei despir de exageros o sentimento por uma pessoa importante para mim. Desconfio que, no caso dos supremacistas brancos, a relação com o ódio seja diferente. Ao menos foi a impressão que tive dos entrevistados pelo minidocumentário da Vice, que parecem conviver mais com o discurso do que com o sentimento de ódio. Será que eles repetiriam tudo o que dizem pensar para uma mulher negra sentada na frente deles? Duvido. É mais fácil alguém “falar o que pensa” quando não precisa lidar com quem ouve te olhando no olho. Me chama a atenção, por exemplo, como o careca que fica meio-sorrindo o tempo todo nas filmagens não consegue nem manter contato visual com a entrevistadora – loira e branca – por muito tempo. O cabeludo que ela entrevista dentro da van tem a mesma dificuldade. Desviar o olhar e encarar o horizonte são mecanismos que a gente usa quando quer lembrar de alguma coisa. No caso deles, deve ser tanto um exercício de memória – relembrar o que a cartilha do ódio quer que eles reproduzam – quanto uma tentativa de fugir do olhar que eles devem encarar há tempos: o de quem te ouve e deixa claro que está pensando em como uma pessoa pode ser tão perdida assim na vida.

Passeata de supremacia branca é fichinha perto da nova moda que é atropelar pessoas em calçadas. Se eu não estou a fim de colocar minha segurança em risco, é só não aparecer perto da passeata. Mas se eu não quero morrer atropelado numa calçada, faço o que?

Tudo o que leio a respeito do Estado Islâmico – que é quem vem assumindo a autoria pela maioria dos atropelamentos recentes – ainda é muito fragmentado. Tem quem diga que eles estão perdendo força, mas quando você vê como ficou a cidade de Mossul depois de ter sido reconquistada, dá para falar que isso foi uma vitória? É como admitir que os cupins do mundo estão diminuindo só porque você dedetizou sua casa. Não sei se dá para medir o poder do Estado Islâmico pela quantidade de membros concentrada num mesmo lugar (o que parece ser a métrica mais usada para avaliar a extensão do poder deles). E nem sei se a gente tá pronto para lidar com essa insegurança de não saber quantos são ou onde estão seus membros. Talvez o terrorismo seja bem-sucedido ao criar esse tipo de sensação.

Quando o Mal começa a ganhar letra maiúscula e tudo parece estar indo para o buraco, é importante duvidar do que a gente pensa e do que acha que vê. Afinal, é só o mundo se apresentar minimamente dividido que a capacidade humana de enxergar conspiração em tudo ganha força.

Com o Estado Islâmico, os absurdos aparecem rápido. Os princípios pelos quais se guiam são baseados em crenças e profecias bem antigas, de um nível quase mitológico. Daí o exercício de olhar-de-novo parece ter um resultado óbvio: descartar todo o movimento como mais um bando de alienados que, apesar de sanguinolentos, logo logo vai ficar para a história.

Acontece que, depois de dezenas de entrevistas, com ele [Musa Cerantoni, defensor do EI] e com dezenas de seus companheiros em quatro continentes nestes dois últimos anos, acabei por vê-los como a superfície visível de uma causa que estava mexendo com as emoções e convicções de dezenas de milhões de outros, e que continuaria a inspirá-los ainda por décadas, mesmo se perdesse seu território central na Síria e Iraque. Aqueles homens e mulheres não eram autômatos psicopatas. Na verdade, muitos eram inteligentes, alguns até refinados e muito polidos. E o que eles estavam seguindo era mais do que um sistema de crença. Era um modo de pensar e viver, de compartilhar alegria e devoção; era uma cultura em si mesma.

A dissonância cognitiva ainda me perturba: são pessoas inteligentes que têm crenças extraordinariamente perversas. É tentador procurar resolver essa tensão duvidando da sinceridade deles – com certeza não desejam o genocídio, com certeza não me querem ver morto. Mas procurei por sinais de embuste e, se houver algum, eles são as vítimas, não os autores. Quando alguém diz algo maldoso demais para que acreditemos, nossa resposta não é duvidar de sua sinceridade, mas expandir nossa capacidade para imaginar o que podem desejar pessoas que, não fosse por isso, pareceriam íntegras. Essa é a resposta apropriada ao Estado Islâmico, concluí. Ouvir suas vozes e ver seu interminável currículo de apedrejamentos, imolações e balas na cabeça deixam-me com a mesma sensação daqueles pesadelos apavorantes que acabam nos acordando por serem vívidos demais. O terror torna-se tão intenso que nos arranca do sono. Entretanto, esse pesadelo só tem feito tornar-se mais real, sem um retorno ao estado de vigília, e ainda não concluiu sua expansão da nossa intimidade com o mal.

Se você olha para a richa besta entre direita e esquerda aqui no Brasil, fica óbvio que o ódio direcionado ao outro lado tem como finalidade a derrota. Eu venço, você perde. Mas quando a representação desse ódio – as mutilações, decapitações e estupros do EI – é para o seu bem, como você lida?

[Musa Cerantoni] Avisou-me que não demorariam a chegar os últimos dias profetizados por Maomé. A Terra sofreria secas – um terço do planeta ficaria sem chuva por um ano, e dois terços no ano seguinte. Viveríamos em uma era de milagres, tanto falsos como reais, de sofrimentos, massacres e tribulações inimagináveis, de guerra global travada com os mais variados instrumentos, do sabre à bomba termonuclear. Os que sobrevivessem, muçulmanos ou não, ansiariam pela morte.

Isso tudo ele relatou com a maior calma enquanto eu o ouvia e comia o meu cordeiro. A cada minuto o almoço perdia o gosto para mim. Diante de batalhas finais e apocalipse, quem é que vai ligar para comida? Quem é que vai ligar para qualquer coisa? As preocupações cotidianas que tinha carregado comigo àquele encontro (Meu gravador está funcionando? Tranquei mesmo o quarto no hotel?) perderam importância. Por um momento, senti a contracorrente da crença e consegui imaginar por que alguém poderia renunciar ao mundo sem graça em que eu vivo em troca do mundo encantado de Musa Cerantonio.

(...)

“Compreendo”, ele [Abu Aisha, que não defende abertamente o EI, mas propaga umas ideias muito próximas à dele] disse. “Você acha que isso é demais, e não é o único. O próprio Profeta disse que pessoas lhe fariam oposição. Isto é uma guerra – e não uma guerra que nós escolhemos. Não fazemos isso porque desejamos ferir vocês. Fazemos porque desejamos lhes oferecer alguma coisa.” Ele virou as palmas das mãos para cima, no gesto universal que representa dar. “Queremos ver todos os seres humanos no paraíso. Esta não é uma religião egoísta. Queremos ver vocês lá conosco.” (...)

Para Abu Aisha, minha obstinação seria cômica se não fosse trágica. Ele parecia pronto para me pegar pelas mãos e me sacudir para ver se eu despertava. Esses sinais – sem falar na perfeição do Alcorão e no exemplo do Profeta – não eram suficientes para me arrancar da hipnose da kufr [descrença]? “Estamos aqui para tornar o islã fácil para você!”

Esses são trechos de um texto publicado na piauí e fazem parte do livro A Guerra do Fim dos Tempos. O Estado Islâmico e o Mundo que Ele Quer, lançado pela Companhia das Letras.

Se te interessa confundir toda essa violência com amor, então vem comigo. A escrita dessa edição calhou com minha leitura do Simpatia pelo Demônio, do Bernardo Carvalho. A história trata da relação entre dois personagens que, entre outras coisas, se envolvem em abuso emocional, amor autodestrutivo, sexo gay, violência no sexo (um pouquinho só) e crise de meia-idade. Um livro que o MBL amaria odiar.

Tenho dois trechos aqui. O primeiro revela, marromenos, algo da relação entre os personagens. Se você tiver aversão a qualquer tipo de spoiler, pula. O segundo é só para mostrar um exemplo de graciosidade na escrita do Bernardo Carvalho.

Até aquele encontro no teatro, em Berlim, o Rato queria crer que o mundo fosse constituído de um amor em potencial, uma reserva de amor. Era sua parte de inocência. “Você pode rir, me chamar de ingênuo, mas está aí uma inocência que eu preferia não ter perdido, porque sem ela também não há vida”, ele respondeu à terapeuta. "Eu achava que bastava descobrir os canais certos para ter acesso a esse amor. E isso criava as condições de possibilidade para a esperança e a ilusão. A vida era isso, em potencial. A ilusão dava força para continuar vivendo, por pior que as coisas fossem. Eu sabia do mal, reconhecia onde estava o mal, combatia o mal profissionalmente, e o mal, por definição, me repelia. Enquanto eu o combatesse, ele estava fora de mim e eu estava imune a ele, fora da sua zona de influência. O mal era só uma ideia, uma abstração com a qual eu podia lidar à distância e entender como uma presença, uma necessidade e um fato, intelectual e profissionalmente. O mal existia, e não podia deixar de existir, mas eu não corria nenhum risco de me envolver com um assassino ou um criminoso de guerra, por exemplo, estávamos sempre em campos opostos. O mal só podia me atingir contra a minha vontade. Em Berlim, descobri que, ao assumir a imagem do meu desejo, havia um mal que eu não reconhecia nem podia combater. Esse mal depende de uma encenação, é claro. É um teatro. A sua fraqueza está nas palavras, porque o sujeito é incapaz de associá-las à verdade. Tudo o que ele diz é falso. Ele acaba se contradizendo por suas ações. Fala por clichês, por imitação, pelo que ouviu alguma vez outros dizerem. É uma língua fraca, porque não pode dizer a verdade. Não pode expressar seus sentimentos; está condenada a reproduzir como pastiche o que supõe ser o sentimento do outro, sua vítima. Imita a palavra do outro. É um eco vazio, como naquele e-mail em que ele fala de uma tristeza incomunicável. É tudo postiço. O único sentimento que ele pode manifestar de verdade é a raiva e o medo do animal acuado, quando a encenação é desmascarada, quando ele é contrariado. Mas, em geral, isso não ocorre. Ele sabe de quem se aproxima. Uma vez em contato com quem fala essa língua de espelho, a vítima se entrega, se reconhece no oposto, achando que é o mesmo, reconhece a vida na morte. A vítima pode a princípio até perceber alguma coisa estranha, que alguma coisa está fora do lugar e de sincronia, mas não pode (ou não quer) ver a impostura, porque de algum modo passa a reconhecer as próprias palavras nessa voz, e se confunde, achando que encontrou uma alma gêmea, um duplo, o amor. E depois, quando se dá conta do erro (se é que tem essa sorte), deixa de acreditar no poder que as palavras têm de dizer a verdade, qualquer verdade. A partir daí, ou você se cala ou se torna cínico. Não dá mais para acreditar na potência do amor nem na das palavras. A única coisa que ele sente de verdade mas não pode dizer é o amor que tem por si mesmo, porque dizer significaria desfazer toda a encenação.

Esse tipo de epifania é um dos meus xodós em ficção. Um outro é quando a escrita dá conta de expressar uma sensação já conhecida por quem lê, mas por outro viés. O segundo trecho faz isso. Vai da grandiosidade da experiência de comunhão humana à percepção de enclausuramento no próprio corpo – o pior tipo de solidão? – num único parágrafo. Maravilhoso.

E ele chorou ainda mais forte, ouvindo aquele oratório de inspiração cristã, destruído pelo entendimento de que estivesse condenado à inveja e à luxúria, e que inveja e luxúria nada mais eram do que solidariedade e compaixão cósmicas reduzidas a pecado pela miséria do lugar onde agora ele a encontrava. Chorava de vergonha. Não tinha coragem de olhar para os lados. O que ele perderá não fora só o [nome de personagem], mas uma ideia de mundo e uma ilusão. Sem o [nome do personagem], agora ele sabia, não havia mais ligação cósmica possível, ele estava condenado a pecar. Era esse afinal o efeito da moral cristã, o lugar a que ele fora reduzido. Não adiantava projetar, não havia sexto sentido, não havia comunhão espiritual com o resto dos homens. Ele estava confinado aos limites de seu corpo mortal, ao raio estreito de seus sentidos físicos, reduzido à própria vida, àquele percurso miserável de um indivíduo entre o nascimento e a morte.

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Para dar uma aliviada, é bom saber que, depois de abertos, os portões do inferno pelo menos têm umas coisinhas engraçadas, que os restaurantes agora se adequam às suas fotos no insta e que, finalmente, alguém se deu conta de que pagode é mais complexo que rock. Só não se alivia mesmo quem precisa viver com um salário mínimo em São Paulo.

Mais que escrever, jogar fora

18 Jul 2017

Status: ainda escrevendo aquele texto que não ficou pronto para a outra edição. E nem vai ficar. Sempre tive dificuldade em falar o que eu penso em público. Ainda mais em forma de texto, que fica acessível depois de a gente nem lembrar que ele existe. Esse era desses textos de opinião que, por ser de opinião, me fez querer argumentar com base em ideias de terceiros – tudo para não dar o passo em falso terrível que é estar errado na internet.

O problema é que se passaram três meses, o texto evoluiu pouquíssimo e ele nem é grande coisa. Por isso pensei no seguinte: vou colocar as ideias dele aqui. Soltas mesmo. Algumas fazendo sentido entre si, outras que não encontraram muito onde ficar e umas que funcionam mais como imagem do que como argumento. Melhor hora pra testar se esse sufixo –zine dá espaço para uma bagunça mental de vez em quando.

  1. Se a gente atravessa a rua quando vê alguém “suspeito” vindo ao nosso encontro, tem como se considerar socialmente consciente? Dá para falar em preocupação ambiental se, para comermos menos carne, consumimos grãos plantados em terras desmatadas? Continua feminista o homem que não dá voz para suas colegas mulheres num ambiente marjoritariamente masculino?
  2. Se eu, homem, fico quieto ao presenciar um comentário machista, minha vida não muda em nada. Se eu, homem branco, não me incomodo quando alguém puxa a bolsa contra o próprio corpo ao cruzar com uma pessoa negra na rua, segue o baile. Na cartelinha de bingo dos privilégios, meus pontos só se acumulam – e os exemplos em que eu sou apenas um observador também. Privilégio é escolher os momentos em que você levanta suas bandeiras ideológicas.
  3. Esses dois primeiros trechos foram bem no comecinho, quando eu achava que o tema do texto seguiria mais no caminho de “é fácil levantar bandeira ideológica (com tecnologias) quando a gente pode escolher quando faz isso”. Foram duas variações que acabei descartando como introdução por achar meio pé no peito demais. Tentei ir por outro lado da mesma ideia e falar do privilégio como falta de percepção:

  4. A capacidade de não perceber talvez seja necessária para nossa sobrevivência. Se sentíssemos os micromovimentos da língua, das pálpebras piscando ou o ritmo da respiração, a vida seria um inferno. Se considerássemos o que estão pensando as pessoas que demoram para passar as compras no caixa e as que não te atendem direito num restaurante, não seria possível odiá-las sem culpa. Se não nomeássemos de coxinhas, petralhas, de classe C ou de usuários, teríamos mais dificuldade em afastar essas pessoas como “os outros”.
  5. Quando escrevo sobre tecnologias, preciso tomar cuidado com dois caminhos muito prováveis no texto. O primeiro é a pintura de uma distopia óbvia, já que o que mais existe no mundo da tecnologia são ideias que casam bem com um futuro do mal – inteligência artificial, machine learning e empregos automatizados, por exemplo. O segundo caminho possível é um discurso propagandista que nasce da crença de que novas tecnologias são a salvação de tudo – defender tudo o que o Elon Musk faz, basicamente. O meio do caminho, que desconfia de tudo, é mais difícil.
  6. Quando comecei a ouvir a expressão “economia compartilhada”, ela se referia a pessoas querendo dividir os custos de alguma coisa que as interessava porque não podiam bancar o valor total dessa alguma coisa ou não ligavam em dividir a posse dela com outras pessoas. Desse tipo de relação surgiram empresas como o Kickstarter, o Queremos! e o Patreon, que servem ainda hoje como detentoras das tecnologias que facilitam o encontro entre as pessoas interessadas. O termo, porém, se distorceu. Hoje ele é usado para descrever a relação duvidosa entre empresas como Airbnb e Uber e seus funcionários não registrados (anfitriões e motoristas, por exemplo). Ao se apropriarem do termo, só esqueceram de definir o que exatamente a “economia compartilhada” compartilha nesses casos.
  7. O discurso de “tecnologia por um mundo mais justo” casa muito bem com a visão de jovens como eu, cujo descontentamento com o capitalismo está muito mais na culpa burguesa de precisar ignorar um morador de rua pedindo ajuda do que na distribuição desigual de renda. Então, se pedindo um Uber ou alugando um quarto na Airbnb eu ainda posso sentir que ajudo gente-como-a-gente, melhor ainda para minha consciência.
  8. A Classe C, coxinhas, petralhas, usuários. São todos termos que contribuem para que a gente se afaste da ideia de que essas pessoas são gente como a gente. [Preciso da citação] Lembro de, num dos tantos documentários sobre a crise econômica de 2008, algum entrevistado ter dito que, quanto mais nos afastamos da ideia palpável daquele objeto (no caso, a comparação era o afastamento que acionistas têm da ideia de dinheiro quando estão lidando com ações da bolsa), a gente toma atitudes em relação a essa coisa com menos culpa.
  9. É moda agora falar de consumo consciente. O que a gente come e o que a gente veste já tem caído nessa peneira de “será que tou incentivando o maltrato de alguém por escolher esse aqui?”. Talvez falte a gente começar a questionar isso com tecnologia. Pensar em iphones produzidos na China e em Google monitorando os lugares pelos quais você passa já é mais normal em alguns círculos. Mas pensar se “será que alugar um quarto na Airbnb pode estar estimulando pessoas a despejarem outras pessoas porque alugar a curto prazo é mais lucrativo?”. Quando a tecnologia se torna invisível demais, a gente não vê o quanto ela é poderosa [também não lembro a citação, acho que é do Paul Ford].

E foi daí que não consegui sair. Nesse último parágrafo, o tom já é de fim de redação de escola. "Talvez falte a gente começar a questionar". Credo. Fora que: "começar a questionar". Dois verbos no infinitivo pra quê? Depois: "talvez (...) começar a". A prova da insegurança em emitir opinião no melhor estilo desculpa incomodar.

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Minhas referências principais, caso o tema te interesse:

  1. The Unexotic Underclass. É daqui a ideia de que gente da área de tecnologia só quer resolver Big Problems (fome na África) e não liga muito para as pessoas comuns (big problems).
  2. This is America in 2013: 40 years ago we put a man on the moon; today a young lady in New York can use anti-problem technology if she wishes to line up a date this Friday choosing only from men who are taller than 6 feet, graduated from an Ivy, live within 10 blocks of Gramercy, and play tennis left-handed...

    …And yet, veterans who’ve returned from Afghanistan and Iraq have to wait roughly 270 days (up to 600 in New York and California) to receive the help — medical, moral, financial – which they urgently need, to which they are honorably entitled, after having fought our battles overseas.
    It’s not rocket science: people build what they know. Cosmopolitan, well-educated young men and women in America’s big cities are rushing into startups and building for other cosmopolitan well-educated young men and women in big cities.
    The unexotic underclass are the poor in Eastern Europe, and Central Asia, who just don’t look foreign enough for our taste. (...) But if you were to go to Bulgaria to volunteer or to start a social enterprise, how would the folks back on Facebook know you were helping ‘the poor?’ if the poor in your pictures kind of looked like you?
  3. Agradeça ao Custo Brasil. Essa é a primeira parte de uma série que fala sobre o futuro em que novas tecnologias substituem nossos (?) empregos. E usa o Brasil como cenário, o que é raro de se ver. O ponto alto dele foi perceber como ainda gostamos de serviçais.
  4. Não só é cada vez mais comum ver “self-checkout” em vez de caixas nos supermercados [em países desenvolvidos], como o conceito de “empacotador” inexiste há décadas. Enquanto isso, por aqui há uma norma do Ministério do Trabalho que diz que é preciso ter pelo menos um empacotador a cada 3 caixas – em supermercados mais “chiques” daqui de São Paulo há um por caixa e alguns funcionários extras para ajudar a levar até o carro.
    “o brasileiro é exigentíssimo com o serviço, e por vezes exige do garçom uma atenção para assuntos que vão além de sua função: levar até a mesa, ser simpático à dúvida e indecisão, ser solícito à pressa e não apenas explicar os pratos, mas sugerir o melhor custo-benefício”. Muitos exigem que os garçons não apenas sirvam, mas sejam os servos temporários. Gente que reclama quando os garçons começam a levantar as cadeiras e lavar o lugar enquanto ainda estão jantando. “Nossa, vão expulsar a gente daqui!”, pensam os patrões brasileiros, ignorando o horário do funcionamento do transporte público.
    Quando jogarmos o lixo no lixo (separado), quando precisarmos assinar menos papéis, quando lavarmos a nossa própria louça, quando ficarmos honestos o suficiente para usarmos os caixas self-service, quando formos um país mais educado e eficiente, enfim, o que todo esse pessoal vai fazer? Por que não estamos pensando nisso? E se esses dados começam a alarmar você, como vamos começar a conversar sobre um possível desemprego em massa?
  5. Is The Gig Economy Working?. Rodou bastante pelos meus feeds então talvez você tenha visto. É um texto que olha para as pessoas que trabalham nas empresas da "economia compartilhada" e tenta pintar um panorama geral da relação entre os dois lados.
    Instead of scrubbing bathrooms at the Hilton, you can earn directly, how and when you want. Such thinking, though, presumes that gigging people and the old working and service classes are the same, and this does not appear to be the case. A few years ago, Juliet B. Schor, a sociology professor at Boston College, interviewed forty-three mostly young people who were earning money from Airbnb, Turo (like Airbnb for car rentals), and TaskRabbit. She found that they were disproportionately white-collar and highly educated
    A century ago, liberalism was a systems-building philosophy. Its revelation was that society, left alone, tended toward entropy and extremes, not because people were inherently awful but because they thought locally. You wanted a decent life for your family and the families that you knew. You did not—could not—make every personal choice with an eye to the fates of people in some unknown factory. But, even if individuals couldn’t deal with the big picture, early-twentieth-century liberals saw, a larger entity such as government could. This way of thinking brought us the New Deal and “Ask not what your country can do for you.” Its ultimate rejection brought us customized life paths, heroic entrepreneurship, and maybe even Instagram performance. We are now back to the politics of the particular.
    Jacob Hacker, a political-science professor at Yale, described a decades-long off-loading of risk from insurance-type structures—governments, corporations—to individuals. Economic insecurity has risen in the course of the past generation, even as American wealth climbed. Hacker attributed this shift to what he called “the personal-responsibility crusade,” which grew out of a post-sixties fixation on moral hazard: the idea that you do riskier things if you’re insulated from the consequences. The conservative version of the crusade is a commonplace: the poor should try harder next time. But, although Hacker doesn’t note it explicitly, there’s a liberal version, too, having to do with doffing corporate structures, eschewing inhibiting social norms, and refusing a career in plastics.
  6. Did Airbnb Kill the Mountain Town?. Ainda sobre economia compartilhada. Mas agora olhando só para empresas de aluguel provisório, como a Airbnb, e como elas afetam a dinâmica de cidades no interior dos EUA. Daqui veio o a ideia para o trecho ursinhos carinhosos, o último da lista.
  7. Some places, including Boulder and Denver, have passed tough regulations that permit only primary residents to rent out their properties for short periods. Other towns have taken the opposite tack, changing laws to allow previously illegal renting that was already on the rise
    Later, as I walked back to the place I had rented—via Airbnb—a few blocks away, I thought of a line I had seen on the site: “Live like a local.” But what happens when locals can’t afford to live like locals?
    After thinking about STRs [Short Term Rentals] for sev­eral days, it struck me that the whole deal, thorny and murky, seemed like the kind of quagmire that American political scientist Robert E. Horn has called a “social mess.” The STR issue meets any number of Horn’s criteria: “different views of the problem and contradictory solutions”; “numerous possible ­intervention points”; ­“consequences difficult to imagine”; and “no unique ‘correct’ view of the problem.”
  8. Como escrever bem. Mais um jabá. Esse me ajudou a desencanar desse não-texto que só empacou a newsletter – ou essa é a narrativa que criei para justificar minha desistência?
  9. Quando se vir em um impasse desses, observe bem o ponto problemático e pergunte: "Preciso mesmo disso?". Provavelmente a resposta será "não". A pecinha estava tentando fazer um trabalho desnecessário o tempo todo – e é por isso que ela o afligia tanto. Remova-a e veja como o trecho em questão volta a ganhar vida e a respirar normalmente. É a cura mais rápida e, muitas vezes, a melhor.

Então

21 Jun 2017

Desde que a última edição foi enviada, comecei a escrever um texto que tá dando trabalho. Ele é mais extenso e precisa, de cara, de mais contexto do que as coisas que costumam aparecer por aqui. Mais contexto puxa mais referências que, nesse caso, pedem mais coesão. Aí já era. Revisão atrás de revisão.

Também comecei a ler o Como escrever bem e o A Amiga Genial, da Elena Ferrante. Como são concisos para escrever. Poucos floreios no texto, vão direto ao ponto, e mesmo assim, são cheios de boas imagens. Aí já era de novo. Além de estar escrevendo mais, quero escrever melhor.

Dizer para um escritor relaxar é o mesmo que dizer para um homem relaxar enquanto está sendo examinado por causa de uma hérnia. Quanto à [ter] confiança, veja só a rigidez com que ele se senta, olhando para a tela que aguarda suas palavras. Veja quantas vezes ele se levanta para pegar alguma coisa para beber ou comer. Um escritor faz qualquer coisa para evitar o ato de escrever. Por experiência própria como jornalista, posso assegurar que o número de vezes que cada repórter vai, por hora, ao bebedouro ultrapassa de longe a necessidade de água que seu corpo tem.

(do "Como escrever bem", que recomendo pra qualquer pessoa que se identifica com aflições da escrita como quem se identifica com horóscopo)

Enquanto eu lido com isso, você pode ficar com esses links:

Escrita e design pela sempre ótima Nicole Fenton

Cidades fantasmas na La La Land

Qual a verdade fundamental do que você constrói?

Maximizando a tristeza

O Uber é culpa nossa

Calvin Harris fazendo "Slide"

Entre MIT IDEO, quem ganha? MIT

Lista atualizada de substantivos coletivos

Quebramos e perdemos a internet

Oh, the irony

Sistemas invisíveis

Ed Sheeran fazendo o que ele faz de melhor

Esse gameplay do novo homem-aranha que, puta merda

Nunca achei que minha nostalgia de juventude começaria na Marimoon

Essa vibe da Jay Som é boa demais

E desse One Direction meio indie também

Encarando abismos

27 Abr 2017

Com tanto de anúncio certeiro a respeito do que eu "gosto" e de "quem eu sou" aparecendo pra mim, comecei a me perguntar: existe alguém realmente genuíno?[1]

Meio que todo mundo já sabe que a Amazon tem um algoritmo do mal capaz não só de rastrear o que você já comprou como também de prever o que você pode-querer-quem-sabe-aqui-umas-sugestões comprar. A obstinação do Jeff Bezos me atrai assim como olhar pra baixo de certa altura me atrai: uma curiosidade misturada com medo. Curiosidade por ainda não entender como dá certo esse modelo que injeta dinheiro em empresas que não dão lucro real e medo porque elas ficam tão anabolizadas que sufocam quem não tem o mesmo poder de fogo. A Amazon é isso. Investe em ecommerce, em tevê, em anúncios, em software, em hardware e vai engolindo todo mundo que ela considera concorrência. E depois de ajudar a fechar várias livrarias e mercados locais, ainda quer que, num futuro próximo, você berre sua lista de compras para a Alexa enquanto sente gratidão pela graça alcançada.[2]

Imagem mostra close do CEO da Amazon, Jeff Bezos, olhando o horizonte
If you stare into the abyss, the abyss stares back at you

Meio que todo mundo já sabe também que a internet se sustenta com propaganda. Um banner tosco aqui, um aumente seu pênis acolá e pronto, todo mundo se divertindo e ganhando dinheiro. Por experiência, sei também que trabalhar com propaganda é um ciclo esquisito começa na galera da agência batendo palmas pra anúncio que é folheado em 0.5s numa página de revista e termina nas 240h de trabalho semanais recompensadas por um troféu em forma de galo num dos maiores jerk circles na história do trabalho.

Ataques gratuitos à parte, o que separei aqui se relaciona mais com o trabalho das agências na compra e venda de espaços para divulgação de seus clientes. O trecho a seguir vem de uma entrevista com o Gabriel Leydon, CEO de uma empresa que, entre outras coisas, desenvolve jogos mobile. Durante um evento com anunciantes, jornalistas, agências e um entrevistador que faz umas perguntas meio bobas, meio relações-públicas, Leydon encontra uma brecha e dá uma aula a respeito desse cenário:

There's a fundamental misunderstanding of what the internet means for media companies. It means that we're very quickly getting to a point where we can value your eyeballs. We're not gonna just talk about how many [eyeballs] you have anymore. That's gone. Forget it. No one is gonna give you money because you have eyeballs. We wanna know if they're real. Because we know there are fake eyeballs. There's a lot of fraud. We wanna know if it performs when we buy it. We wanna know what the effects are. We wanna know if we can buy more (...) That's because the market itself is perverse. The media publishers can't get an engineer work for them. They can't do it. No engineer wants to work at a media publishing company. (...) They want to build shut-- they want to go work for Elon Musk and go live on Mars. (...) The publishers are kind of dipping their toe in the water in digital and they're getting really scared by it. They're like "I don't know what's happening, I'm not making the kind of money I should. I make more money on TV so let's just go back to TV, let's just pretend that TV is gonna be the future." (...) Engineers don't wanna work for agencies either. (...) There's no engineering work at these places, so salespeople want to take the most money away from you as possible, 'cause they're getting 20%. So they're saying: "How do I get the buyer to spend more? Who cares whether it actually works for them." (...) You can't go to them 'cause they're not incentivized to do the right thing. They're incentivized to spend the most money possible. (...) The buyers are universally unhappy. Every buyer is unhappy with the market because there's a push to avoid quantifying their media. They want to actively avoid pricing their media. They want to set prices out of thin air and say "I have eyeballs". And digital break that all down because it's all trackable. (...) What drives me crazy about this particularly is that the media companies typically don't have what I would call a real business. The users that use their media don't wanna pay them anything. (...) So the media publisher depends on someone else who has a real business, who actually makes money, to give them money. (...) I think what we're seeing, why media is kind of consolidating, or maybe collapsing in on itself, is that there's a denial on what their business really is and what the true value of what their business is. And they're doing everything possible to avoid real value measurement of what they do. They don't want it. (...) There's a final piece: the publishers don't want anybody to quantify anything; the agencies just want the most money possible (...) and there's nobody building software for the buyers. So if you say "I want to go out and do a sophisticated large-scale marketing campaign" there's no help for you. The ad technology that helps buyers is really poor (...) What's going to happen in this scenario is: buyers are going to become more sophisticated whether everybody likes it or not. It's inevitable.[3]

A sinceridade nesse desabafo é do tipo que só a combinação de irritação e cansaço conseguem produzir.

  • Notas
  • [1] Pra perder o sono, saiba que existe uma teoria de que você não existe. O que existe é a interseção entre "como os outros te veem" e "como você se vê".
  • [2] Vi esse futuro esquisito/atraente nessa palestra aqui.
  • [3] O trecho começa aqui. Enquanto transcrevia, pensei que meu deus, pra quê esse trabalhão se existe em vídeo?

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E você, com quantos não-assuntos teve que lidar no elevador essa semana? Pensou em perguntar pra onde vai essa percepção de mundo depois que a gente cresce? Ou por que demoraram tanto pra falar mal da buzzword de 2016? E por que essa pesquisa não é obrigatória? É tanta coisa que gente tem em comum.

Viver macumbeiramente

17 Mar 2017

Já ouvi algumas pessoas próximas, mas queria ouvir de você, com quem eu não falo com tanta frequência: tá gostando disso aqui? Tá fazendo sentido? Tá textão demais? Ou nem precisa me falar-falar, se preferir. Se tá gostando, mostra pra alguém (ou pra 5 alguéns). Agradeço bastante.

Ainda tento não virar o olho quando vejo designer reclamando de como o design é visto por aí. Sei que é difícil explicar o tanto de peças que se encaixam pra compor uma ideia; que a vida de designer não é feita de "banhos de loja" e nem de aparições de musas inspiradoras. Sei também que, por conta dessa dificuldade em falar de nós mesmos, outras pessoas acabam preenchendo esse espaço e nos colocando à uma distância confortável de "deixa eles brincarem que uma hora fica bonito". Mas tem designer que gosta dessa posição – ou parece gostar. Designer que, assim que vê a oportunidade de se mostrar pro mundo, dá continuidade à ideia de criatividade como algo místico, idolatra indivíduos e repete que design is how it works, dobra sua gola rolê e sai andando.

Reclamar que ninguém entende seu design [1] é uma postura confortável e ainda te garante uns tapinhas nas costas. Se você gosta, boa sorte. Mas se não quer ficar de cabeça baixa, arrastando seu Raider com Meia™ por aí, faz bem procurar pela turminha lado b [2]. Olhar pra quem não é popstar e nem trabalha numa das gigantonas do Vale. Olhar pra pessoas como a Andréa Mallard, que já mostra que é diferente por trabalhar numa empresa cujo objetivo não é destruir todos os seus concorrentes. Uma mulher que é formada em jornalismo e atua como designer no tão temido m a r k e t i n g. E alguém que – isso eu não acreditava ser possível – sabe falar em storytelling sem soar como bøishit.
// High Resolution (YouTube) →

Qualquer pessoa que tenha assistido Into The Wild ou escutado um cd do Bon Iver deve ter sentido a atração falsamente nostálgica por mato, cabanas isoladas e por uma vontade de fugir da cidade. Quem sentiu isso também deve ter esquecido que no mato tem mosquito e formiga picando o pé, que em cabana isolada tem barata e cheiro de mofo e que deve ser difícil segurar a ansiedade pra mostrar a #solitude com fotinha no insta. Por outro lado, a gente também não percebe como é bonito ver a galera curtindo um pagode na casa da frente ou como o tempo sem fazer nada dentro de um ônibus pode ser bem gostosinho pra quem costuma dirigir o tempo todo pela cidade.

Comecei a reparar melhor nesses contrastes depois de ler os textos do Victor Heringer e de ver o jeito que ele olha pra vida [3]. O que me deu a ideia de escrever esse parágrafo aí de cima foi o diário de uma viagem que ele fez pra Índia, em que mostra que as coisas são assim mesmo: uma hora vai ter mosca pousando na sua comida e na outra, transcendência.

Se você fica tempo o suficiente num templo vazio, com os pés descalços no frio chão de pedra… Se você se concentrar por alguns segundos dentro do templo vazio, com os pés descalços no frio chão de pedra, você sente. Você não sabe o que é, mas já sentiu isso antes. A tontura transcendental. As pernas bambeiam um pouco.

Antes eu também achava quase impossível ser um viajante ocasional e me livrar da afobação que é querer visitar o máximo de lugares no menor tempo possível. Não sei se dá pra chegar fácil na proposta dele, mas que ela é interessante, isso é.
// SP Review →

A minha ideia é viajar macumbeiramente. Tentar ao máximo não ser turista. O turista é aquele que não incorpora o outro. É o antimacumbeiro por excelência. O turista é um trabalhador: vim, vi, fotografei. O turista sempre mantém o outro a uma distância que assegure o exotismo. Sem o exótico, não precisa do desconforto que é viajar. O viajante macumbeiro, por outro lado, quer o transe, quer que todas as distâncias se anulem, ao menos por alguns instantes. Ele vibra quando os exotismos se desfazem, para se refazerem em diferença. Há um abismo fundo entre o exótico e o diferente.
  • Notas
  • [1] Não dá pra colocar nesse mesmo barco, claro, situações em que "ser designer" não é o que te desfavorece num ambiente (como ser mulher no meio de um bando de machista).
  • [2] Frank Chimero, Mills Baker e Nicole Fenton são os que eu indico de cara, sempre. Tenho queda por designers que escrevem, o que talvez te dê preguiça. Nesse caso é só esperar. Ainda falarei dessas gracinhas por aqui.
  • [3] Sempre que vejo alguém viajando bastante e por muito tempo, desconfio de patrocínio externo (e do mesmo privilégio daqueles que pensam que jogar tudo pro ar e "correr atrás dos seus sonhos" é uma opção pra todos nós). Mas acho também que preciso ter um pouco mais de fé nesse mundão.

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Ainda dá tempo das fofocas? Porque descobriram um tanto de planetas pra gente morar quando tudo for pro saco e também que tem muita coisa pra resolver antes de a gente se mudar. Tá todo mundo atacando de DJ e já dá pra imaginar porque a franjinha do Hitler se mexia de forma tão frenética.

O dedo do meio do Galileu

18 Fev 2017

Admitindo alienação
com um pouco de textão

A culpa inevitável depois das recaídas é o que me faz um participante fiel do movimento Eu Me Importo Sim Mas Que Preguiça Que Dá Tomar Grandes Passos Pra Fazer O Mundo Melhor. Recaídas que justifico na base do "é só mais uma carninha na semana" ou "é só mais uma embalagenzinha plástica" pra depois ter que lidar com a lembrança de litros e litros de água sendo gastos para produzir 1kg de carne e a eterna imagem de tartarugas e outros bichos do mar morrendo enroscados em plástico. Os hábitos conscientes de alimentação e de consumo/descarte de materiais sempre me pareceram os mais difíceis de manter, já que exigem esforço diário e podem interferir até nas relações com outras pessoas (principalmente com as que insistem que esse tipo de preocupação é frescura). Mas depois de descobrir a Ética, etiqueta etc, newsletter da Gabriela Romero, me dei conta de que acabo fazendo mais vista grossa para o que escolho vestir do que para outras áreas da vida, mesmo depois de ver prédio desabando em cima de mil pessoas e de rir junto com os que pensam que a galera do ocidente deve pagar muito caro pela água que usa para lavar as próprias roupas – já que só isso justifica a quantidade de lixo têxtil que produzimos. Vale ler todas as edições da newsletter, que é bem recente. Mas, pra começar de leve, vamos de "Cinco perguntas sobre moda ética".
// Ética, etiqueta etc →

A ideia de começar pela moda responde a características específicas da indústria, que fazem esse princípio ser mais fácil e mais urgente. Primeiro, é bem possível que você já tenha no armário roupas suficientes para os próximos 10 ou 20 anos. Tirando casos extremos de ganho ou perda de peso, tendo roupas com tecidos de qualidade, é possível viver com as mesmas peças por décadas. Logo, nosso consumo de moda é muito mais voltado para a satisfação de desejos do que para o atendimento de necessidades.

Não sei como você vê o mundo, mas se tá lendo isso aqui, chuto que seu termômetro social caia mais para o lado da turminha de #humanas. Por conta disso, também é provável que você atribua ao pessoal do lado de lá (se é que você ainda acredita em lados) as atitudes absurdas que dão início às discussões nas caixas de comentários desse mundão de meu deus. Mas Jesse Singal está aqui para tirar nossa paz de espírito e apontar, numa coluna-meio-resenha do livro Galileo's Middle Finger, dois momentos em que os ditos liberais inventaram umas histórias bem das absurdas para continuarem como donos da razão. Um dos casos é o de um antropologista que, entre outras coisas, foi acusado de pagar índios ianomâmis para matarem uns aos outros durante sua pesquisa.

Dreger suggests that Chagnon’s reputation as a careful, dedicated scholar didn’t matter to his critics — what mattered was that his version of the Yanomamö was “Not your standard liberal image of the unjustly oppressed, naturally peaceful, environmentally gentle rain-forest Indian family.”

O outro relata o estudo de um psicólogo que, depois de entrevistar pessoas transgênero, chegou à teoria de que o contexto em que elas vivem influencia a escolha pela transição. Ou seja, ao contrário da conclusão de outras pessoas a respeito do tema, a decisão envolve mais variáveis do que o sentimento de ter nascido no corpo errado.

However, he didn’t see sexual orientation as the only thing a male factors in when deciding whether to transition. He recognized that in one environment — say, an urban gay neighborhood like Chicago’s Boystown — an ultrafemme gay man might find reasonable physical safety, employment, and sexual satisfaction simply by living as an ultrafemme gay man. But in a very different environment — say, a homophobic ethnic enclave in Chicago — he might find life survivable only via complete transition to womanhood. Whether a transkid grows up to become a gay man or a transgender woman would depend on the individual’s interaction with the surrounding cultural environment. Similarly, an autogynephilic man might not elect transition if his cultural milieu would make his post-transition life much harder.

(...)

It also brings sexuality back into a conversation that some trans activists have been trying to make solely about gender identity — roughly parallel to the way some gay-rights activists sweep conversations about actual gay sexuality under the rug, preferring to focus on idealized, unthreatening-to-heterosexuals portrayals of committed gay relationships between clean-cut, taxpaying adults.

Foi como mexer num vespeiro. Ativistas dos direitos trans (sim) acusaram o autor de manter relações sexuais com entrevistados e de expô-los sem autorização. Ao mesmo tempo, publicaram fotos da filha dele com legendas do tipo "exibicionista faminta por pinto". Tudo bem progressista.
// Science of Us →

p.s.: Procurando mais sobre o título do livro, descobri que o dedo-do-meio do Galileu existe e está exposto num museu de Florença.

Imagem mostra pintrua de Galileu mostrando o dedo do meio

Se é pra te acharem mais interessante, que tal mostrar um sorriso perfeitamente parisiense e sem alma, surpreender a todos com seus conhecimentos sobre os campeonatos de empilhamento de copos e falar que sim, jé é possível fazer duetos musicais usando inteligência artificial?

Neandertais palitando os dentes

30 Jan 2017

Hoje: as formas tortas do humor e da ironia, uma mesa redonda sobre produtos digitais para jornalistas e um novo jeito de encarar nossos primos.

Até que se fala pouco de humor nesses tempos em que o "politicamente correto" é acusado de inibir piadistas ruins por aí. Nesse texto para o IMS, a Camila von Holdefer faz uma mini reflexão a respeito de três vertentes tortas do humor: a machista, a desesperada e a cruel.
// Blog do IMS →

Há várias formas de compreender ou justificar a necessidade, em geral legítima, de não se levar a sério. Uma delas, minha favorita, tem a ver com rejeitar a ilusão de controle. É um outro registro de humor, nem sofisticado, nem de gosto duvidoso, mas antes próprio de uma postura ou de uma forma de encarar a vida. É um processo complexo e contínuo, e por vezes inútil.

David Foster Wallace era outro que se interessava pelo tema, principalmente na forma da ironia (é de um trecho da revista Serrote que eu só tenho copiado à mão mesmo, desculpa):

"Acredito que a ironia de hoje está provavelmente dizendo o seguinte: 'Que coisa absolutamente mais banal você me perguntar o que quero dizer'. Qualquer um que tenha a petulância herética de perguntar a um ironista o que ele na verdade defende acaba por parecer histérico ou careta. Eis o caráter opressivo da ironia institucionalizada, do rebelde bem-sucedido demais: a capacidade de interditar a 'questão' sem se reportar ao seu 'conteúdo' é, quando exercida, tirania."

O que, fora a história em si, faz uma história existir? Esse é um dos princípios que guia o pessoal que trabalha com produtos digitais no Buzzfeed, no The Guardian e na Vox Media. Nessa mesa redonda, eles se reúnem para falar sobre a construção de produtos no contexto de uma redação, em que jornalistas nem sempre acostumados com tecnologia precisam aprender a dividir decisões editoriais com o "pessoal que conserta computador".
// YouTube →

Chega de usar "mas é um neandertal" como xingamento, porque nossos primos não são tão diferentes assim de nós. Além de preparar enterros e produzir jóias, eles também já tinham o costume de palitar os dentes (!) e extinguir outras espécies de animais. Mas isso tudo é descoberta recente. As certezas anteriores a respeito deles eram, claro, bem preconceituosas.
// NYTimes →

In 1911, Boule began publishing his analysis of the first nearly complete Neanderthal skeleton ever discovered, which he named Old Man of La Chapelle, after the limestone cave where it was found. Laboring to reconstruct the Old Man’s anatomy, he deduced that its head must have been slouched forward, its spine hunched and its toes spread like an ape’s. Then, having reassembled the Neanderthal this way, Boule insulted it. This 'brutish' and 'clumsy' posture, he wrote, clearly indicated a lack of morals and a lifestyle dominated by 'functions of a purely vegetative or bestial kind.' A colleague of Boule’s went further, claiming that Neanderthals usually walked on all fours and never laughed: 'Man-ape had no smile.' Boule was part of a movement trying to reconcile natural selection with religion; by portraying Neanderthals as closer to animals than to us, he could protect the ideal of a separate, immaculate human lineage. When he consulted with an artist to make a rendering of the Neanderthal, it came out looking like a furry, mean gorilla.
Imagem mostra um boneco de Neanderthal abraçando a si mesmo
Como não amar?

Mas eu só queria uns assuntos pra fila do banco, você diz. Então veja só (mais um) exemplo de como será o supermercado do futuro. O escritor brasileiro que decidiu viver numa fazendinha no ápice da sua carreira. O joguinho-dilema-moral do MIT para decidir quem morre em acidentes de carros autônomos. E o que existe por trás do valor de uma simples brusinha.

Começando como se já tivesse começado

22 Jan 2017

Essa newsletter começa como se já estivesse no mundo há tempos, mas só agora tivesse caído no seu colo.

01 – Design as Participation, Kevin Slavin

These designers do this by engaging with the complex adaptive systems that surround us, by revealing instead of obscuring, by building friction instead of hiding it, and by making clear that every one of us (designers included) are nothing more than participants in systems that have no center to begin with. These are designers of systems that participate – with us and with one another – systems that invite participation instead of demanding interaction.

Um tipo interessante de designer para o futuro. Só fico em dúvida se, como indivíduos, a gente será capaz de abrir mão das próprias ideias para começar a projetar em conjunto. (sem que isso vire, claro, um chororô de "ninguém me ouve")

02 – Why Information Grows, Cesar Hidalgo

O que nossa espécie tem de diferente que faz com que informação se transforme em conhecimento? Quais são as características de uma informação que fazem dela compartilhável? Como um vídeo gravado no Google consegue ter uma qualidade de áudio tão ruim como a desse? Isso tudo você descobre nesse link.

03 – No., Jen Lowe

I wonder what power might come from refusing the rising complexity? What time might be gained by refusing to try to make sense of the senseless? What new models could we build with that power and time?

Claro que teria que ter algo sobre o Trump.